A última rodada de discussões em Bonn, na Alemanha, encontro entre representantes de nações para discutir os rumos de um acordo climático global, não foram muito animadoras. O embaixador chinês para o clima, Yu Qingtasi, chegou a declarar que está preocupado com a tendência dos países ricos de jogar as responsabilidades de corte de emissões nos emergentes. Do outro lado, os países desenvolvidos demonstram que realmente querem mais comprometimentos desse grupo.
É verdade que a China tornou-se o maior emissor mundial de gases causadores do efeito estufa. Críticos demonizam o país e condenam a construção de duas novas termelétricas a carvão por semana.
Mas também é verdade que as emissões per capita do país equivalem a apenas um quinto do resultado dos EUA. Se for levada em conta a responsabilidade histórica, essa proporção cai para um décimo. Mesmo assim, é certo que toda aquela fumaça vai parar na atmosfera. Não importaria muito se a Terra fosse habitada apenas por Adão e Eva ou por 10 bilhões de pessoas. Os efeitos climáticos causados pelo acúmulo de CO2 e outros gases de efeito estufa na atmosfera seriam igualmente catastróficos - a única diferença é que, com mais gente, há mais sofrimento.
Mesmo assim chega a ser injusto acusar a China de cruzar os braços diante das mudanças climáticas. Como mostra uma reportagem da Reuters, o país está entre os que têm os melhores planos de cortes de emissões. A ONG WWF também confirma isso e, de acordo com um estudo da organização, a China tem metas ambiciosas para energia renovável e eficiência energética. O próprio governo chinês declarou que incluirá o controle de emissão de gases do efeito estufa no plano de desenvolvimento do país.
Parece que os chineses perceberam que não é uma má legislação climática que pode prejudicar sua economia, mas, sim, não tomar nenhuma atitude diante desse cenário.
Na vice-liderança
Os investimentos em energia limpa comprovam a pró-atividade da China nesse campo. O país está em segundo lugar nesse ranking. Até 2007, gastou 12 bilhões de dólares, ficando atrás somente da Alemanha, que havia investido 14 bilhões até então. Todo esse dinheiro colocou o país entre os líderes mundiais em energia solar, eólica, veículos elétricos, transporte ferroviário e tecnologias de ponta.
Mas os investimentos não param por aí. Cerca de 9% do pacote de estímulo econômico chinês, que soma 586 bilhões de dólares, serão destinados a projetos de desenvolvimento sustentável. Também se espera que o país crie um novo pacote de incentivos, que pode ficar entre 440 bilhões e 660 bilhões de dólares, apenas para o desenvolvimento de novas energias durante a próxima década.
Segundo reportagem da Bloomberg, se isso realmente acontecer, a China será indiscutivelmente o líder mundial em produção de energia limpa.
Enquanto não chega lá, o país prioriza a eficiência energética. Um dos objetivos é reduzir em 20%, em comparação aos níveis de 2005, a quantidade de energia necessária para produzir riqueza. Isso, se alcançado, representará um corte de 1 bilhão de toneladas de CO2 por ano a partir de 2010. Para se ter uma idéia, os cortes de emissão para a União Européia estipulados no Protocolo de Kyoto são de 300 milhões de toneladas anuais até 2012.
Pequenas estações elétricas estão sendo fechadas na medida em que plantas mais eficientes são construídas. A China já fechou cerca de 34GW de potência entre 2006 e 2008 e planeja fechar mais 31GW nos próximos três anos.
Medidas como essa aumentam a eficiência energética do país. Em 2005, para gerar 1 KW de eletricidade era preciso queimar 370 gramas de carvão. Com o fechamento das pequenas termelétricas e a construção de usinas maiores e mais eficientes, passou-se a usar 349 gramas para produzir a mesma quantidade de energia. Usinas ainda mais eficientes vão produzir 1GW com apenas 283 gramas de carvão.
Com relação aos transportes, apesar do crescente mercado automobilístico, a China planeja investir mais de 1 trilhão de dólares na expansão de sua malha ferroviária. Assim, a rede passará dos atuais 70 mil quilômetros para 120 mil quilômetros de extensão em 2020.
Com tudo isso, fica claro que, se a China não está fazendo tudo o que pode para diminuir suas emissões, está, pelo menos, fazendo muito mais do que a maioria dos países desenvolvidos.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Avanços em Bonn, mas não o suficiente
Enquanto o aquecimento global vai literalmente queimando florestas da Europa, como mostra novo estudo do Greenpeace, líderes mundiais tentam estabelecer as bases de um possível acordo climático, a ser assinado em dezembro, em Copenhague. Durante esta semana, houve mais uma rodada de discussões em Bonn, na Alemanha. Foi a terceira do ano, que ainda tem mais duas programadas: entre os dias 28/9 e 9/10, em Bangkok, na Tailândia; e entre 2 e 6/11, em Barcelona, na Espanha.
De acordo com o Earth Negotiations Bulletin, uma publicação independente que divulga informações diárias sobre negociações multilaterais de meio ambiente e desenvolvimento sustentável, a UE (União Européia) disse que as nações desenvolvidas e em desenvolvimento fizeram progresso no que diz respeito à limitação das ameaças do aquecimento global e a uma economia de baixo carbono.
O chefe da Convenção da ONU sobre Mudança Climática, Yvo de Boer, mostrou alguma satisfação e afirmou que há avanços também no que diz respeito ao acesso tecnológico e auxílio financeiro aos países em desenvolvimento. Mas ele espera que as negociações se acelerem. “Se continuarmos nesse ritmo, não vamos conseguir”, alerta ele.
Já China e Índia saíram insatisfeitas de Bonn. O embaixador chinês para o clima, Yu Qingtasi, declarou à agência de notícias Reuters, que existe um sentimento geral de insatisfação quanto aos esforços das nações desenvolvidas. “O mais preocupante é a continuação e, até mesmo, o alinhamento da tendência de tentar jogar as responsabilidades nos países em desenvolvimento”, reclama ele. Qingtasi afirma que a China se esforça para atingir o pico de suas emissões, mas que a prioridade de seu país e lutar contra a pobreza.
Para a Índia, os países ricos estão esperando muito dos pobres e falham em estabelecer maiores cortes de suas próprias emissões. “Existem países em desenvolvimento que, talvez, estejam fazendo mais do que as nações desenvolvidas”, atacou Shyam Saran, enviado especial da Índia para mudança climática. Além disso, ele argumenta que os países em desenvolvimento não podem aceitar um corte de emissões mandatório. Isso, diz o enviado, prejudicaria o desenvolvimento e o crescimento econômico desses países.
As nações em desenvolvimento querem que, até 2020, os países ricos cortem suas emissões de gases de efeito estufa em pelo menos 40% abaixo dos níveis registrados em 1990. Além disso, pedem ajuda tecnológica para ajudar os pobres a controlar suas próprias emissões.
Para pequenas ilhas-estado, os cortes devem ser maiores: de pelo menos 45% para manter o aquecimento global em 1,5°C. “Os cortes prometidos até agora ficam apenas entre 10% e 16% abaixo dos níveis registrados em 1990, o que significa um aumento de 3°C na temperatura do planeta. Esse caminho será catastrófico para todos os países”, afirma Dessima Williams, de Granada, que representa o grupo de ilhas-nações.
A própria UE criticou a média de cortes de emissões oferecidos pelos países desenvolvidos.
Para muitos dos delegados presentes em Bonn, o próximo encontro de líderes, em Nova York, e do G20, em Pittsburgh, ambos em setembro, devem avançar as negociações e ajudar a quebrar os impasses.
De acordo com o Earth Negotiations Bulletin, uma publicação independente que divulga informações diárias sobre negociações multilaterais de meio ambiente e desenvolvimento sustentável, a UE (União Européia) disse que as nações desenvolvidas e em desenvolvimento fizeram progresso no que diz respeito à limitação das ameaças do aquecimento global e a uma economia de baixo carbono.
O chefe da Convenção da ONU sobre Mudança Climática, Yvo de Boer, mostrou alguma satisfação e afirmou que há avanços também no que diz respeito ao acesso tecnológico e auxílio financeiro aos países em desenvolvimento. Mas ele espera que as negociações se acelerem. “Se continuarmos nesse ritmo, não vamos conseguir”, alerta ele.
Já China e Índia saíram insatisfeitas de Bonn. O embaixador chinês para o clima, Yu Qingtasi, declarou à agência de notícias Reuters, que existe um sentimento geral de insatisfação quanto aos esforços das nações desenvolvidas. “O mais preocupante é a continuação e, até mesmo, o alinhamento da tendência de tentar jogar as responsabilidades nos países em desenvolvimento”, reclama ele. Qingtasi afirma que a China se esforça para atingir o pico de suas emissões, mas que a prioridade de seu país e lutar contra a pobreza.
Para a Índia, os países ricos estão esperando muito dos pobres e falham em estabelecer maiores cortes de suas próprias emissões. “Existem países em desenvolvimento que, talvez, estejam fazendo mais do que as nações desenvolvidas”, atacou Shyam Saran, enviado especial da Índia para mudança climática. Além disso, ele argumenta que os países em desenvolvimento não podem aceitar um corte de emissões mandatório. Isso, diz o enviado, prejudicaria o desenvolvimento e o crescimento econômico desses países.
As nações em desenvolvimento querem que, até 2020, os países ricos cortem suas emissões de gases de efeito estufa em pelo menos 40% abaixo dos níveis registrados em 1990. Além disso, pedem ajuda tecnológica para ajudar os pobres a controlar suas próprias emissões.
Para pequenas ilhas-estado, os cortes devem ser maiores: de pelo menos 45% para manter o aquecimento global em 1,5°C. “Os cortes prometidos até agora ficam apenas entre 10% e 16% abaixo dos níveis registrados em 1990, o que significa um aumento de 3°C na temperatura do planeta. Esse caminho será catastrófico para todos os países”, afirma Dessima Williams, de Granada, que representa o grupo de ilhas-nações.
A própria UE criticou a média de cortes de emissões oferecidos pelos países desenvolvidos.
Para muitos dos delegados presentes em Bonn, o próximo encontro de líderes, em Nova York, e do G20, em Pittsburgh, ambos em setembro, devem avançar as negociações e ajudar a quebrar os impasses.
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terça-feira, 11 de agosto de 2009
Você acha que tudo bem comer carne e usar roupas de couro?
Sem querer ser chato, até porque não sou eu o "tão cruel assim" dessa história. Mas vamos lá...
Você acha que tudo bem comer carne e usar roupas de couro? Talvez porque não seja o SEU couro, não é mesmo? Dá uma olhada nos videos da PETA e depois tenha a paz de espírito para continuar fazendo isso.
Learn more at PETA.org.
Você acha que tudo bem comer carne e usar roupas de couro? Talvez porque não seja o SEU couro, não é mesmo? Dá uma olhada nos videos da PETA e depois tenha a paz de espírito para continuar fazendo isso.
Learn more at PETA.org.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Homem também corre risco de extinção
Ainda não encontrei a espécie humana em nenhuma lista de animais ameaçados de extinção. Já pensou? Que maravilha seria a Terra sem os homens! A vida seguiria seu rumo e somente a casualidade dos desastres naturais é que poderia destruir uma coisinha aqui e outra ali.
É justamente esse exercício de imaginação, do mundo livre dos seres humanos e do seu rastro de sujeira, que propõe o documentário Life after people (Vida depois dos homens), produzido pelo The History Channel. Não surpreendentemente, o equilíbrio da vida voltaria ao normal tão logo a população humana desaparecesse da face da Terra.
O verde e a vida selvagem tomariam conta das cidades em apenas algumas décadas. Nem mesmo imponentes selvas de concreto resistiriam às reações químicas naturais e sucumbiriam diante da falta de manutenção.
Em 10 mil anos, poucos traços da presença humana restariam no planeta. Do pó ao pó!
Esse cenário parece bem improvável. Afinal, somos 6,5 bilhões de humanos. Até 2050, a Organização das Nações Unidas (ONU) acredita que seremos 9 bilhões. E pensar que em 1950, éramos por volta de 2,5 bilhões.
Se de um lado a população humana está crescendo desenfreadamente, do outro, espécies estão simplesmente sumindo. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), entidade que busca soluções para o crescimento sustentável, 15.589 espécies correm risco de extinção. Isso significa que um em cada quatro mamíferos, um em cada oito pássaros e um em cada três anfíbios deixarão de existir para sempre em um futuro próximo.
Obviamente, essa lista é mais uma que não inclui o homem. Mas, como explica o pessoal da Species Alliance, organização com o objetivo de divulgar agressões ao ambiente e suas consequências, a sobrevivência dos humanos depende direta e indiretamente de toda a biodiversidade. Sem o equilíbrio desse ecossistema, haverá uma extinção em massa. E o animal humano também estará ameaçado.
A boa notícia é que esse quadro vai mudar. Mesmo que o homem desapareça, a vida continua.
Um exemplo dessa força de recuperação é Chernobyl, aquela cidade ucraniana que foi destruída por um acidente nuclear em 1986 (na época, Chernobyl fazia parte da então União Soviética). Aos poucos, a vida ali volta a florescer. Já não cabe mais chamá-la de cidade-fantasma. Até mesmo algumas pessoas voltaram a morar por lá (ainda não se sabe ao certo quão seguro é pisar por aquelas terras).
Agora é hora de mudarmos nossos valores e criarmos novos padrões para o que chamamos de qualidade de vida. Contemplar e preservar as belezas naturais deveria estar no topo das prioridades de todo o mundo. Continuar destruindo tudo é destruir toda a vida no planeta, inclusive a nossa.
É fundamental termos a consciência de que são os homens os maiores ameaçados de extinção. Como vimos, o planeta se recuperaria (e vai se recuperar) completamente em alguns milênios. Pode parecer muito, mas o que é o tempo para quem não tem relógio?
É justamente esse exercício de imaginação, do mundo livre dos seres humanos e do seu rastro de sujeira, que propõe o documentário Life after people (Vida depois dos homens), produzido pelo The History Channel. Não surpreendentemente, o equilíbrio da vida voltaria ao normal tão logo a população humana desaparecesse da face da Terra.
O verde e a vida selvagem tomariam conta das cidades em apenas algumas décadas. Nem mesmo imponentes selvas de concreto resistiriam às reações químicas naturais e sucumbiriam diante da falta de manutenção.
Em 10 mil anos, poucos traços da presença humana restariam no planeta. Do pó ao pó!
Esse cenário parece bem improvável. Afinal, somos 6,5 bilhões de humanos. Até 2050, a Organização das Nações Unidas (ONU) acredita que seremos 9 bilhões. E pensar que em 1950, éramos por volta de 2,5 bilhões.
Se de um lado a população humana está crescendo desenfreadamente, do outro, espécies estão simplesmente sumindo. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), entidade que busca soluções para o crescimento sustentável, 15.589 espécies correm risco de extinção. Isso significa que um em cada quatro mamíferos, um em cada oito pássaros e um em cada três anfíbios deixarão de existir para sempre em um futuro próximo.
Obviamente, essa lista é mais uma que não inclui o homem. Mas, como explica o pessoal da Species Alliance, organização com o objetivo de divulgar agressões ao ambiente e suas consequências, a sobrevivência dos humanos depende direta e indiretamente de toda a biodiversidade. Sem o equilíbrio desse ecossistema, haverá uma extinção em massa. E o animal humano também estará ameaçado.
A boa notícia é que esse quadro vai mudar. Mesmo que o homem desapareça, a vida continua.
Um exemplo dessa força de recuperação é Chernobyl, aquela cidade ucraniana que foi destruída por um acidente nuclear em 1986 (na época, Chernobyl fazia parte da então União Soviética). Aos poucos, a vida ali volta a florescer. Já não cabe mais chamá-la de cidade-fantasma. Até mesmo algumas pessoas voltaram a morar por lá (ainda não se sabe ao certo quão seguro é pisar por aquelas terras).
Agora é hora de mudarmos nossos valores e criarmos novos padrões para o que chamamos de qualidade de vida. Contemplar e preservar as belezas naturais deveria estar no topo das prioridades de todo o mundo. Continuar destruindo tudo é destruir toda a vida no planeta, inclusive a nossa.
É fundamental termos a consciência de que são os homens os maiores ameaçados de extinção. Como vimos, o planeta se recuperaria (e vai se recuperar) completamente em alguns milênios. Pode parecer muito, mas o que é o tempo para quem não tem relógio?
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Sim, eu quero acreditar!
O slogan mais marcante dos últimos tempos foi o “Yes, we can!” (Sim, nós podemos!, em tradução livre) incessantemente repetido por Barack Hussein Obama em sua campanha vitoriosa para se tornar o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Mas será que ele pode mesmo? Já imagino o Obama apontanto o seu indicador no meu nariz desconfiado e gritando: “Yes, we can!” E eu responderia: “Sim, eu quero acreditar!”
Semanas atrás, o G20, grupo dos países mais ricos e dos principais emergentes, reuniu-se em Londres. O objetivo era definir uma estratégia para combater a crise financeira global. Ao fim do encontro, o anfitrião Gordon Brown, primeiro-ministro do Reino Unido, fez um anúncio em nome de todos os líderes participantes da reunião.
“Hoje é o dia em que o mundo se juntou para lutar contra a recessão global. Não com palavras, mas com um plano de recuperação e reforma que conta com um esquema claro de trabalho”, disse ele citando vagamente algo sobre a economia verde. Obama, o carismático (não o bárbaro que estão pintando nos quadrinhos), também falou bonito. “Hoje, os líderes responderam com esforço sem precedente”, declarou. Lula, chamado pelo norte-americano de “o líder mais popular da Terra” - o que até faz algum sentido se, primeiramente, descartarmos o mais popular, que é o próprio Obama - também deu sua opinião: “Foi bom não só para o Brasil, mas para a esperança e o futuro da humanidade”. Será?
Eu quero acreditar! Quero ter fé de que aquele tenha sido mesmo o ponto de virada. Mas será que foi mesmo?
Para ambientalistas do mundo todo, não foi não. Eles estavam desapontados com a falta de comprometimentos mais claros com o ambiente e os empregos verdes. É difícil dar crédito aos políticos. Primeiramente, porque já estamos calejados de ouvir discursos bonitos que não se tornam ações concretas. São as retóricas vazias, de que tanto os ambientalistas reclamam. E parece que eles têm razão. Uma indicação disso foi o fiasco do econtro das Nações Unidas em Bonn, na Alemanha, realizado na semana passada.
Mais abrangente do que o G20 de Londres, Bonn recebeu 2.500 representantes de 175 países. Em pauta, estava a criação dos termos de um acordo climático a ser assinado em Copenhagen, na Dinamarca, em dezembro. O documento, se houver algum, deve substituir o Protocolo de Kyoto. Foi então que o mundo ouviu o primeiro “Não, nós não podemos” (não exatamente com essas palavras) do Obama. Justiça seja feita, é louvável a disposição dos Estados Unidos em participar das discussões sobre o aquecimento global, o que não ocorreu em momento nenhum durante o governo de Bush.
Mas Jonathan Pershing, o representante Americano nas discussões em Bonn, disse que os EUA só tomariam as medidas que fossem possíveis do ponto-de-vista político, econômico e tecnológico. Isso, de acordo com as propostas apresentadas, significa que os americanos querem baixar suas emissões para os níveis registrados em 1990 em um prazo que se estende até 2020.
Países como as Filipinas disseram que os ricos deveriam cortar mais: algo em torno dos 40% entre 2013 e 2017, e mais de 50% entre 2018 e 2022 dos níveis registrados em 1990. Isso é mais ou menos o que o Greenpeace defende. Quero ver até onde o presidente Obama está disposto a ir nessa questão. Se for para fazer, que faça direito. Enquanto isso, o Brasil, herói até então desconhecido na área de energia limpa, quer investir mais em termoelétricas. Isso significa maior dependência dos combustíveis fósseis e, consequentemente, mais carbono na atmosfera brasileira. De acordo com o Plano decenal de Energia 2008/2017, o país vai aumentar para 5,7% a geração de energia proveniente dessas fontes sujas. Isso não é bom exemplo de um herói.
Pois é. Eu quero acreditar! Mas está difícil.
Semanas atrás, o G20, grupo dos países mais ricos e dos principais emergentes, reuniu-se em Londres. O objetivo era definir uma estratégia para combater a crise financeira global. Ao fim do encontro, o anfitrião Gordon Brown, primeiro-ministro do Reino Unido, fez um anúncio em nome de todos os líderes participantes da reunião.
“Hoje é o dia em que o mundo se juntou para lutar contra a recessão global. Não com palavras, mas com um plano de recuperação e reforma que conta com um esquema claro de trabalho”, disse ele citando vagamente algo sobre a economia verde. Obama, o carismático (não o bárbaro que estão pintando nos quadrinhos), também falou bonito. “Hoje, os líderes responderam com esforço sem precedente”, declarou. Lula, chamado pelo norte-americano de “o líder mais popular da Terra” - o que até faz algum sentido se, primeiramente, descartarmos o mais popular, que é o próprio Obama - também deu sua opinião: “Foi bom não só para o Brasil, mas para a esperança e o futuro da humanidade”. Será?
Eu quero acreditar! Quero ter fé de que aquele tenha sido mesmo o ponto de virada. Mas será que foi mesmo?
Para ambientalistas do mundo todo, não foi não. Eles estavam desapontados com a falta de comprometimentos mais claros com o ambiente e os empregos verdes. É difícil dar crédito aos políticos. Primeiramente, porque já estamos calejados de ouvir discursos bonitos que não se tornam ações concretas. São as retóricas vazias, de que tanto os ambientalistas reclamam. E parece que eles têm razão. Uma indicação disso foi o fiasco do econtro das Nações Unidas em Bonn, na Alemanha, realizado na semana passada.
Mais abrangente do que o G20 de Londres, Bonn recebeu 2.500 representantes de 175 países. Em pauta, estava a criação dos termos de um acordo climático a ser assinado em Copenhagen, na Dinamarca, em dezembro. O documento, se houver algum, deve substituir o Protocolo de Kyoto. Foi então que o mundo ouviu o primeiro “Não, nós não podemos” (não exatamente com essas palavras) do Obama. Justiça seja feita, é louvável a disposição dos Estados Unidos em participar das discussões sobre o aquecimento global, o que não ocorreu em momento nenhum durante o governo de Bush.
Mas Jonathan Pershing, o representante Americano nas discussões em Bonn, disse que os EUA só tomariam as medidas que fossem possíveis do ponto-de-vista político, econômico e tecnológico. Isso, de acordo com as propostas apresentadas, significa que os americanos querem baixar suas emissões para os níveis registrados em 1990 em um prazo que se estende até 2020.
Países como as Filipinas disseram que os ricos deveriam cortar mais: algo em torno dos 40% entre 2013 e 2017, e mais de 50% entre 2018 e 2022 dos níveis registrados em 1990. Isso é mais ou menos o que o Greenpeace defende. Quero ver até onde o presidente Obama está disposto a ir nessa questão. Se for para fazer, que faça direito. Enquanto isso, o Brasil, herói até então desconhecido na área de energia limpa, quer investir mais em termoelétricas. Isso significa maior dependência dos combustíveis fósseis e, consequentemente, mais carbono na atmosfera brasileira. De acordo com o Plano decenal de Energia 2008/2017, o país vai aumentar para 5,7% a geração de energia proveniente dessas fontes sujas. Isso não é bom exemplo de um herói.
Pois é. Eu quero acreditar! Mas está difícil.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Sai da prancheta o carro a vento criado por empresário “hippie”
Em abril, escrevi sobre um projeto de carro eólico. Hoje, ele foi finalizado e tem nome: Nemesis. Veja filmes da caranga.
Enquanto fabricantes de automóveis fazem o que podem para manter suas rodas girando, um grupo de cientistas acaba de quebrar um recorde com seu carro movido a vento (só para deixar claro, o vento apenas recarrega a bateria do motor elétrico). O Green Bird, como foi batizado por seus criadores, bateu na casa dos 200 quilômetros por hora, a marca mais veloz do mundo para esse tipo de veículo.
Apesar do feito, é difícil imaginar qualquer outro uso para o Green Bird que não seja quebrar recordes de velocidade em desertos do planeta. O design da máquina e sua total falta de praticidade não apelariam muito (para ser educado) ao consumidor.
Mas enganam-se aqueles que pensam que o “carro a vento” não pode se tornar atrativo e viável do ponto de vista mercadológico. O desafio de projetar um automóvel que seja ao mesmo tempo bonito, veloz e ecologicamente sustentável, com emissão zero de carbono, foi lançado pela própria empresa patrocinadora do Green Bird, a britânica especializada em energia eólica Ecotricity.
Para isso, Dale Vince, fundador da companhia, juntou um super-time de engenheiros, que já construíram carros como o McLaren F1, o Lotus Elan e o Corvette 2R1. Se tudo correr de acordo com o planejado, o primeiro teste oficial do carro ecológico de Vince será no fim deste mês. “Automóveis elétricos são um grande passo para combater o aquecimento global. Mas um carro eólico é a última palavra em sustentabilidade. A emissão de carbono é zero e o vento é um dos poucos recursos que nunca vão se esgotar”, justifica Vince.
Velocidade não só nas pistas
Se o carrão ecológico de Dale Vince será rápido nas pistas - de acordo com os projetistas, a máquina fará de 0 a 100 em quatro segundos e alcançará até 240 km/h -, as coisas já estão voando na execução do projeto. Tanto, que até mesmo o editor de meio-ambiente do influente jornal The Guardian, John Vidal, ficou impressionado. “Em apenas alguns meses ele conseguiu o que as maiores montadoras não coseguiram”, declara.
O gerente do projeto, Ian Doble, concorda. ” Se fôssemos a Ford, o projeto levaria anos para ficar pronto, consumindo milhões de libras em investimento. Nós mantemos as coisas pequenas e temos agilidade para tomar decisões “, disse ao The Guardian.
Um hippie na estrada
Dale Vince é hoje um dos empresários mais bem sucedidos no ramo de negócios verdes. Durante os anos 90, pesquisou novas maneiras para construir uma vida sustentável. Naquela época, vivia em um veículo militar que antes fora do exército. Um catavento no teto do carro supria sua “casa” com eletricidade. “Eu era o que a mídia chamaria de viajante new-age”, explica.
Apaixonado por velocidade, decidiu investir no projeto de um carro eólico para que a sustentabilidade não signifique sacrifício. O que ele quer mesmo é continuar acelerando por aí sem que, para isso, seja necessário poluir.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Estamos perdendo a chance de mudar o paradigma da política habitacional
Ela é uma das maiores autoridades mundiais em moradia. Tanto que se tornou relatora especial para o Direito à Moradia da Organização das Nações Unidas (ONU). Sem meias palavras, Raquel Rolnik, arquiteta e urbanista da Universidade de São Paulo (USP), condena a política habitacional do governo Lula. Para ela, o Ministério das Cidades, onde trabalhou de 2003 a 2007, age de forma esquizofrênica e só pensa em resultados rápidos e quantitativos. A qualidade, como no plano Minha Casa Minha Vida, foi totalmente descartada. “Corre-se o risco de se criar guetos de pobres, com violência e sem acesso ao trabalho e à educação”. A alternativa que ela defende é a criação de um modelo de gestão democrática para além dos requisitos formais. O objetivo é incorporar a totalidade dos habitantes e moradores em uma condição de cidadania.
Leia a seguir a entrevista que Raquel Rolnik concedeu ao Mercado Ético em seu laboratório na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
Mercado Ético – A senhora deixou o governo por causa de uma política habitacional que chamou de esquizofrênica. Isso melhorou ou piorou desde sua saída?
Raquel Rolnik - Piorou muito. O Ministério das Cidades não caminhou para uma participação democrática, política e popular. O que cresceu foi o pragmatismo de resultados rápidos. Por um lado isso é bom, porque é muito importante ver resultados concretos nessa área. Mas isso não pode vir em detrimento à constituição de um novo modelo de desenvolvimento urbano. Acabamos por ter mais do mesmo.
A grande questão é o enfrentamento e a ruptura do paradigma e do modelo de desenvolvimento, que são excludentes e reproduzem a concentração de renda e poder. Também corresponde a uma concentração de processos decisórios. Toda trajetória de desenvolvimento urbano visa construir a possibilidade da gestão democrática. E uma democracia para além dos requisitos formais, cujo objetivo é incorporar a totalidade dos habitantes e moradores em uma condição de cidadania.
Um dos pilares do movimento de reforma urbana no Brasil é a ampliação da participação direta do povo nos processos decisórios. Isso pode ser feito por meio de conselhos, conferências e processos de pactuação na esfera pública. A discussão toda é incorporar todos de forma organizada e descentralizada.
ME – Como se faz isso?
RR - Existem mil maneiras. Dá para usar ferramentas inovadoras, como a internet. Também dá para desenvolver campanhas públicas de esclarecimento. Mas os processos decisórios dentro das cidades são muito restritos a um circuito onde apenas um setor da sociedade está permanentemente preparado para fazer uma interlocução. Por exemplo, na área de desenvolvimento urbano, o setor empresarial que fornece bens e serviços para a gestão pública, assim como o setor de incorporação e construção imobiliária, onde os negócios dependem muito das decisões políticas, tem fortíssima interlocução com o poder público. É algo permanente. Então, eles acabam tendo um poder e um peso nas decisões muito grande. Isso desequilibra o peso que o cidadão comum, que é morador da cidade e também tem sua vida dependente das decisões da política pública.
ME – A política brasileira é marcada por um populismo, em que é comum trocar “serviços” por votos. A senhora acredita que o mesmo ocorre no plano habitacional Minha Casa Minha Vida?
RR - Minha Casa Minha Vida tem outra natureza. É um programa que exerce uma função fundamental do Estado, que é subsidiar quem não tem acesso via mercado a um bem. Acho que os elementos mais complicados no pacote não são o de ter um resultado eleitoral, mas é o problema como ele se relaciona com a questão urbana como um todo. Se todo investimento para a baixa renda for considerado populismo, não vai haver mais nada para os pobres.
ME – Uma das grandes questões relacionadas ao Minha Casa Minha Vida é a qualidade das moradias. O governo vai construir casa boa para a população mais pobre?
RR - A primeira consideração que temos que fazer é definir o que é casa boa. Então, acho melhor definir isso como moradia adequada. O que é isso? Não é só a casa com parede, teto, banheiro com azulejo. A moradia adequada é um lugar a partir do qual o cidadão passa a ter satisfeitas as necessidades básicas e fundamentais de subsistência nas cidades com dignidade. Então, isso significa estar em um lugar que permita ter espaço público, lazer, escola, saúde, empregos e, também, que permita andar livremente e com segurança. A grande preocupação é a dimensão urbana do plano. No Minha Casa Minha Vida, essa dimensão é inexistente. É um aspecto simplesmente não trabalhado no sistema. E pode ser trabalhado. Deve ser trabalhado. Casa não é só o teto ou o produto em si.
ME – Há a possibilidade de que esse plano seja um tiro pela culatra e cause mais danos do que benefícios para as pessoas?
RR - A crítica não é no sentido de que o pacote vai piorar. Se uma pessoa que não tem casa e passa a ter uma, lógico que ela vai melhorar de vida. Mas com esse mesmo recurso, com essa mesma disposição e priorização, mas com outro componente e outra estratégia agregada, poderia haver mudanças muito significativas, que não ocorrerão. Corremos o risco de reproduzir o modelo já existente. Na época do BNH, foram construídas 1,5 milhão de moradias populares, como por exemplo, Cidade Tiradentes, Cidade de Deus. São guetos de não-cidades. De pobre com pobre. Tinham vários elementos possíveis, como trabalhar com empreendimentos com mistura de renda. O empreendedor poderia construir prédios com partes voltadas para diferentes rendas, mas dentro do mesmo lugar.
ME – Ainda dá tempo de modificar o programa?
RR - Acho que sim. Até porque não é fácil colocar o programa para andar. Tudo mostra que a parte que contempla a faixa da população de 0 a 3 (salários mínimos) está muito difícil. Não estão aparecendo projetos. Em primeiro lugar, a medida provisória que criou o programa (MP 459), está sendo debatida no Congresso. O Congresso Nacional não serve só para aprovar ou não. Serve também para aperfeiçoar. Também na própria discussão do programa, o governo pode mudar de rumo.
ME – A senhora diz que há ainda poucos projetos destinados para a faixa de 0 a 3 salários-mínimos. Mas é aí que está o maior déficit habitacional.
RR – A maior parte da demanda está aí mesmo. Em segundo lugar vem de 3 a 5, que provavelmente vai conseguir entrar no programa por conta do subsídio. Mas o problema maior é o de 0 a 3, que são as pessoas que estão nas favelas, nas ruas, quem não têm renda. É muito complicado. Com um modelo único como esse, que é o modelo da casa própria, é muito difícil viabilizar que alguém com renda zero seja proprietária de um bem de 50 mil reais.
ME – E com relação ao ponto de vista do Minha Casa Minha Vida como forma de combate à crise?
RR – É uma solução tipicamente keynesiana. Ferramentas como essa já foram utilizadas na história, nos anos 30, no Plano Marshall, na reconstrução européia depois da guerra. De fato, investimentos públicos concentrados dinamizam a economia e me parece que, desse ponto de vista, o pacote, se conseguir construir as moradias nesses valores e nessa rapidez, vai ter um efeito anticíclico.
ME – As vendas de materiais de construção aumentaram em 25% depois do anúncio do plano. Esse já é um sinal?
RR – O que isso significa no Brasil? É a autoconstrução. É o cara que vai comprar o saco de cimento para melhorar a casa que ele mesmo construiu. É engraçado que a política pública não intervenha nesse processo, viabilizando terra urbanizada e bem localizada. Também poderia viabilizar assistência técnica para que esse monte de arquitetos e engenheiros soltos por aí possa trabalhar com os auto-construtores e, assim, ajudar a fazer projetos e orientar nas construções. O produto individual e o bairro serão de alta qualidade. Ao invés disso, inventa-se o processo da construtora, que não necessariamente vai chegar na mão de quem mais precisa.
O próprio processo de autoconstrução dinamizaria o mercado. Se de um lado não daria emprego para muitos pedreiros, essas moradias demandariam mais materiais de construção, que é uma indústria que gera muito emprego. Além do mais, esse processo também mobiliza um trabalho especializado: ou é um eletricista ou um trabalho hidráulico. Sempre gera emprego. Mas é um outro emprego. São pequenos empreiteiros e pequenos construtores. A reforma de imóveis é outro campo que também foi completamente ignorada.
ME – Há um déficit habitacional de cerca de 7 milhões de imóveis no Brasil. Mas há 6,5 milhões de moradias vazias. É realmente necessário construir um milhão de casas?
RR - Essa é uma grande questão. Claro que essa conta não é matemática pura. O que há é uma sobreoferta para o mercado de classe média e alta e uma infraoferta para a baixa renda. Mas por que não trabalhar a reforma de um imóvel construído, reabilitando-o para a faixa de baixa renda? Principalmente nas áreas centrais, que já estão prontas e já têm água, esgoto, parque, escola, emprego e que estão vazias. Só na capital de São Paulo, o déficit é calculado em 200 mil moradias, mas há 400 mil unidades vazias.
Para que parte dessas unidades possa entrar novamente no mercado é preciso uma política pública capaz de fazer isso.
ME – Há 34 bilhões de reais destinados para o Minha Casa Minha Vida. Nunca houve tanto dinheiro assim para projetos de moradia popular. Como é que fica essa relação de déficit habitacional, investimento público e o mercado, que representam interesses diferentes?
RR - Primeiramente, a motivação principal do pacote é a anticíclica. O déficit habitacional vem como segunda questão. É uma injeção de dinheiro, que levanta até mesmo a questão da sustentabilidade do projeto. A hora que você disponibiliza 34 bilhões para a construção, sem nenhuma intervenção em termos urbanísticos e fundiários, o que acontece e já está acontecendo é um aumento enorme no preço dos terrenos. O que eu tenho apontado é que muito provavelmente o subsídio vai parar no bolso do proprietário do terreno. Eu dou dois ou três meses para os empresários dizerem que não está dando mais para fazer casas de 60 e 70 mil (reais). Agora eles já estão dizendo que não dá para fazer de 50 mil. E não é porque a casa custa 50 mil reais. É porque a terra custa isso. Quer dizer que o nosso dinheiro foi diretamente para o bolso dos proprietários do terreno.
ME – Corre-se o risco de acontecer no Brasil algo como houve no mercado imobiliário americano?
RR - É um pouco diferente, porque a crise nos Estados Unidos foi causada somente por causa do crédito. No caso brasileiro, há o subsídio. Então haverá uma pressão nesse elemento. Quanto mais subsídio tiver, menos população vai ser atendida. E não é por conta de inadimplência, porque 50 reais dá para pagar. Mas será inviável produzir essas moradias.
ME – A senhora diz que dar ou financiar casa não é a única forma de resolver o déficit habitacional. No Reino Unido, por exemplo, o governo aluga ou oferece gratuitamente casas para a população de baixa renda. Esse modelo poderia funcionar no Brasil?
RR – Claro. As políticas de subsídio ao aluguel poderiam, inclusive, mobilizar o estoque construído. Se uma família não pode pagar o aluguel de 500 reais, mas pode pagar 100 ou 200, receberia um auxílio adicional. A gente tem que entender que direto á moradia não é sinônimo de casa própria. A propriedade e o programa de construção da casa própria são uma modalidade. Mas não são a totalidade. Existem muitas alternativas que, mesmo com menos recursos, poderiam garantir direito à moradia para mais gente. Enfrenta também a questão complicada de uma pessoa com renda de 300 reais mensais ter um bem de 50 mil reais. O que acontece? É obvio que se ela passar por qualquer problema e precisar de dinheiro vai vender o imóvel. Não sou contra isso. Mas ela vai ficar sem casa e sem alternativa.
ME – Ainda com relação ao Reino Unido, o governo iniciou uma caçada aos “ladrões de benefícios”, que são, por exemplo, pessoas que ganharam o direito à moradia gratuita ou subsidiada sem que realmente necessitem dele. Como ficaria essa situação no país em que tudo se resolve com o jeitinho?
RR - Iria acontecer a mesma coisa. Tem malandragem em tudo. No Minha Casa Minha Vida também. Você pega a casa, muda-se para a casa da namorada e vende o bem pelo dobro (do preço). Existem mil maneiras de desenvolver isso. Mas não acho que malandragem desclassifica o projeto e nem que não exista malandragem em nenhuma política pública. A grande questão é a transparência e controle social. Quanto mais a sociedade estiver organizada para acompanhar isso, menos malandragem vai acontecer.
ME – Até antes dessa crise global, o Brasil vivia uma época de razoável crescimento econômico. Tudo leva a crer que quando a Europa e os Estados Unidos resolverem seus problemas, o país vai voltar a crescer. A questão da moradia pode ser resolvida com o crescimento econômico?
RR - Hoje o que prevalece é uma idéia desenvolvimentista. Mas acho que o Planeta está vivendo uma crise séria. Acho que essa crise financeira não é só ela. Estamos vivendo uma crise civilizatória, no modelo de ocupação dos territórios, que se revelam na questão no aquecimento global e da crise da alimentação. É uma situação de limite que exige um novo modelo.
ME – As grandes cidades estão no centro da questão do aquecimento global. Como resolver isso?
RR - Acabar com a mobilidade sob pneus imediatamente, que consome energia e é a pior emissora de gás de efeito estufa. Tem que mudar a matriz de mobilidade e também construir cidades mais compactas. Por exemplo, Nova York e Los Angeles. Los Angeles é extensíssima e Nova York é compacta, mesmo tendo o mesmo número de habitantes. Para mim, parece que o modelo de Nova York é muito mais sustentável.
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